Ontem fiz uma thread aqui falando sobre seguir o diálogo com as pessoas quando o barco do BoIsonaro afundar... aí tão me respondendo: "mas eu não tenho paciência com essa gente"; "é culpa deles mesmo, que se foda".

Acho que a gente precisa analisar melhor o Brasil. Outra thread:

Pra começar, vou contar um caso que um amigo me contou:

Logo depois primeiro turno, ele contratou uma diarista, uma senhora negra já de idade, que chegou lá contando pra ele que tinha votado no BoIsonaro porque tinha ouvido falar que ele tinha levado uma facada, e ficou com dó.
Veja só:
Uma senhora. Mulher. Negra. Pobre. Empregada doméstica.

Trabalha o dia inteiro, mal tem tempo de usar a Internet, tem no máximo um whatsapp pra falar com as vizinhas.

Votou no BoIsonaro por uma notícia que ouviu falar. Votou por compaixão.
No último sábado, quando fui pra praça conversar e tentar virar votos, falei com uma moradora de rua, também negra, com 3 filhos pequenos, e ela não sabia nem pronunciar o nome do BoIsonaro. Na véspera da eleição!

Pense no tanto de informação sobre política que chegou pra ela.
A gente tá achando que todos os eleitores do BoIsonaro são esses monstros e esses robôs fascistas que a gente passou não sei quantos meses perdendo tempo e gastando energia à toa aqui no Twitter em discussões completamente improdutivas.

Mas o país é bem mais complexo.
Dois dados que ajudam a ilustrar:

1. Mais da metade do país não tem internet em casa - muitas pessoas usam apenas no celular, com toda a limitação dos pacotes de dados.

2. Essa eleição teve a maior quantidade de votos nulos e brancos desde 1989.
Somando com as abstenções, nós chegamos a um número de mais de 42 milhões de pessoas que não votaram esse ano. Em comparação, BoIsonaro se elegeu com 57 milhões, Haddad teve 47 milhões.

É quase um terço dos votos.
Tô dizendo isso pra apontar que hoje, a gente tem:

- Uma massa de pessoas que não escolheu nenhum dos dois.
- Uma outra massa de pessoas que votou no Bolsonaro por não ter tido nem metade das informações que a gente acha que todo mundo sabia.

Tem que analisar melhor o Brasil!
A gente tá vivendo um contexto de descrença e despolitização que foi forjado pelos políticos, numa democracia de fachada com pouquíssimas ferramentas de participação social. Num país em que a educação sobre política é nenhuma e ainda está ameaçada por um "Escola sem Partido".
Nesse contexto, não dá pra gente achar que todas as pessoas estavam tão informadas como nós (e que se não se informaram, problema delas), e que portanto todo mundo que votou no BoIsonaro é um monstro fascista que nem ele, com quem não tem nenhum diálogo.

Essa análise é rasa.
Como eu disse, tem aí uma massa de gente que nem votou, e uma massa de gente que votou sem ter o devido acesso a informação, enganada por um discurso anti-política, do medo de uma tal "ameaça", do "vou mudar tudo isso que está aí".

O que a gente faz com essas pessoas?
Eu não vejo outra alternativa que não seja se aproximar e seguir conversando com essa galera.

Quando o projeto do BoIsonaro começar a ruir, a gente precisa estar perto pra apresentar o projeto de sociedade que infelizmente a gente NÃO CONSEGUIU apresentar na eleição.
(Até porque, como Mano Brown duramente apontou, a gente tava fazendo campanha pros robôs aqui. Pouca gente foi pra base, pra contar praquela diarista que BoIsonaro tem orgulho de dizer que foi o único deputado que votou contra os direitos trabalhistas das empregadas domésticas)
Eu também me irrito, também me incomodo, também tenho medo, também sofro, sofro muito, e também me pergunto se eu vou ter paciência.

Até o momento em que eu respiro fundo e lembro que a vida de muita gente depende disso, incluindo a minha própria. Eu não tenho nem alternativa.
A gente tá enfrentando o perigo enorme de ser uma militância que desaprendeu o significado do trabalho de base - e que, se seguir assim, caminha para a própria ruína.

Tem que olhar pro Brasil com mais cuidado, mais profundidade, e assumir bem os desafios que a gente tem aqui.
E pra quem não viu a thread original, aqui está: https://t.co/CUcX8Px7K5

More from All

https://t.co/6cRR2B3jBE
Viruses and other pathogens are often studied as stand-alone entities, despite that, in nature, they mostly live in multispecies associations called biofilms—both externally and within the host.

https://t.co/FBfXhUrH5d


Microorganisms in biofilms are enclosed by an extracellular matrix that confers protection and improves survival. Previous studies have shown that viruses can secondarily colonize preexisting biofilms, and viral biofilms have also been described.


...we raise the perspective that CoVs can persistently infect bats due to their association with biofilm structures. This phenomenon potentially provides an optimal environment for nonpathogenic & well-adapted viruses to interact with the host, as well as for viral recombination.


Biofilms can also enhance virion viability in extracellular environments, such as on fomites and in aquatic sediments, allowing viral persistence and dissemination.
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